Cinema em Casa: Dançando no Escuro

fevereiro 19, 2010

“Barulho é música”

Quem acompanha o blog já algum tempo, conhece bem meu apreço pela direção de Lars von Trier. Não por acaso, seu último trabalho – Anticristo – encabeçou a minha lista dos melhores filmes de 2009.

Então, fui conferir o aclamado Dançando no Escuro, mistura de drama e musical de 2000. A presença inquietante da cantora Björk como autista, papel que ela consegue vivenciar muito bem, faz do filme uma obra de arte, dificil de não querer assistir pelo menos mais uma vez.

A trilha também é de autoria dela. Entre delírios e sonhos, Selma, sua personagem, embarca num mundo particular onde consegue fazer música dos barulhos que ouve seja eles do metal da máquina em que opera do trabalho em uma metalúrgica ou dos passos que escuta do chão. Tudo vira motivo para que ela se sinta uma estrela de musical, gênero artístico que ela adora e que sonha um dia poder se apresentar.

Mas ela e seu filho, imigrantes do leste europeu nos Estados Unidos, moram sós e ambos possuem uma rara doença degenerativa nos olhos que vai cegando. Selma junta dinheiro para que um dia consiga ao menos pagar a cirurgia do filho, para que ele possa continuar enxergando.

O filme é pura sensibilidade, em atuação maestral de Björk. Não sabemos se tudo aquilo é encenação ou é ela mesma, devido as aparentes semelhanças entre a personalidade da cantora e sua personagem. O modo como Lars conduz a história é gradual, reveladora e cheia de beleza estética.

Para terminar fica também o elogio para todo o elenco, em especial, para Catherine Deneuve e David Morse, no papel do policial, juntos são fundamental para o sustento da história.

Nota: 10/10.

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Nine

fevereiro 1, 2010

Com uma produção impecável, um elenco de tirar o fôlego e trailer instigante, Nine já pode ser considerado o maior fiasco da temporada. O filme parece não ter espírito, falta mais ‘coração’ para contar a vida do diretor italiano Federico Fellini (todo italiano que se preza é pura emoção, certo?). A impressão que fica é de um cuidado extremo na parte técnica e aí a gente percebe todo o talento de Rob Marshall e seus takes precisos e um descuido enorme no roteiro, a história não se desenvolve.

Daniel Day-Lewis intrepreta Guido Contini, um cineasta italiano em meio a pressão de ter que produzir um novo filme, mas lhe falta inspiração. Aí, é em suas lindas mulheres que ele tentar extrair um fio condutor que lhe dê subsídios para montar seu novo projeto. Mas Lewis não empolga. O ator inglês não deu conta de mostrar toda a habilidade de Guido em colocar tantas mulheres em sua órbita. Clichês a parte, os ingleses mostram não ter mesmo o traquejo que os italianos têm na hora de mostrar o lado sentimental. Se o filme tivesse sido rodado na lingua nativa, talvez tivesse conseguido emocionar mais.

O ponto alto do filme (pasmem!) é Fergie, interpretando ‘Be a Italian’. Uma voz afinadíssima e um visual provocante, Fergie deu conta do recado e mostrou que manda bem quando o assunto é a voz. Mas Kate Hudson também surpreende cantando ‘Cinema Italiano’, música esta que deverá ser indicada ao Oscar. Juli Dench empolga quando solta a voz. Marion Cotillard é a melhor de todas, muito sensível. Merece mesmo a indicação ao Oscar. Penélope Cruz é a mais sexy e também não vai mal. Mas também não empolga. Nicole Kidman aparece muito bonita no filme e apesar de rápidas passagens dá um toque especial ao filme. Sua apresentação, contudo é um pouco sonolenta. Sophia Lauren ficou a desejar, sua expressão parecia a mesma em todas as cenas que apareceu, mas como ela tem créditos eternos, aí vou poupá-la de minhas humildes críticas. Bom filme, mas pelo seu potencial, deveria ser beeeem melhor.

Nota: 7,5/10.


Julia

setembro 28, 2009

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EUA, 2009 – 143 min.

Mais um trabalho fabuloso de interpretação da atriz Tilda Swinton que incorpora o papel de Julia, uma mulher fora dos padrões “normais” da sociedade americana. Aos 40 anos, Julia é solteira, leva as coisas a “Deus dará” e ainda por cima alcóolatra. Sua vida parece patinar e por mais que o amigo Mitch (Saul Rubinek) tente ajudá-la – ele também fora alcoólatra – Julia acha que o cara quer mesmo é seduzí-la.

Mas de tanto ouvir as recomendações de Mitch, Julia acaba indo a um centro de ajuda a alcólatras, algo similar ao AA. Lá, encontra Elena, uma mulher que coincidentemente é vizinha de janela de Julia. Apresentando um comportamento, anormal, Elena propõe um plano mirabolante à Julia de recuperar o filho, cuja guarda está com o avó paterno desde que o marido de Elena tinha morrido.

Apesar de insano, Julia que está desempregada e sem perspectivas de futuro, mergulha de cabeça no plano proposto por Elena, só que de um jeito ainda mais perverso. O desenrolar desse plano maluco, você fica sabendo quando assistir ;).

O diretor francês Erik Zonca acerta na maioria das cenas, mas é infeliz no final do filme porque retrata o povo mexicano de forma muito caricatural e preconceituosa, o que na minha opinião, prejudica e muito a avaliação do filme.

Os elogios, contudo, ficam todos por conta de Tilda Swinton que assumiu a bronca de um papel dificílimo e soube dar agressividade e simpatia ao personagem na medida certa.

Nota: 8,0/10.


O que podemos esperar de “The Informant!”?

setembro 22, 2009

informant

Depois dos ótimos, porém subestimados, Che part one e Che part two, Steven Soderbergh está de volta com a direção de The Informant!, cujo papel principal é de Matt Demon. Os dois vêm recebendo boas críticas nos festivais pelos quais têm passado, o que deve gerar alguma indicação ao Oscar.

The Informant! é baseado em história real, adaptada da obra de Kurt Eichenwald chamada “The Informant: A True Story”. Mark Whitacre, um executivo de sucesso de uma grande agroindústria se torna um informante do governo. Mesmo delatando ao FBI a conspiração para formação de cartel por parte da multinacional onde trabalha, Whitacre acredita que será transformado em herói da população e promovido. Porém, antes que tudo isso se concretize, o FBI precisa de provas, então Whitacre, entusiasmado, concorda em usar um microfone escondido e levar um gravador escondido na pasta, imaginando-se uma espécie de agente secreto.

Na crítica feita no Blog Rama’s Screen, o autor revela que o filme está fantástico, estendendo o elogio a Steven Soderbergh e definindo a atuação de Matt Demon como uma “outra inteligente e gratificante colaboração… cujo desempenho é nada menos que … soberbo”.

Fica a expectativa de ver o diretor e o ator tão comuns a filmes de drama e ação, fazendo um trabalho de comédia. No Brasil, o título será O Desinformante e tem estreia marcada para o próximo dia 09. Enquanto isso, fique com o trailer:


O Grupo Baader Meinhof

setembro 8, 2009

BaaderMeinhof
Fuja! Sério, quem acompanha o CINEBUTECO sabe bem que sempre busco escrever o melhor do filme, mas em O Grupo Baader Meinhof o espírito Pollyanna tem limites. Não que seja de tudo ruim, mas ou você vivenciou o período narrado ou então sabe muito de história, caso contrário, a sensação de estar ‘boiando’ é inevitável.

Baseado em fatos reais, O Grupo Baader Meinhof conta a história do RFA, guerrilheiros da Alemanha Federal. Composto majoritariamente por jovens estudantes, o grupo representa a extrema esquerda contra um levante fascista no país, ocorrido nas décadas de 1960 e 1970.

O problema é que o recorte da História foi muito longo. O diretor Uli Edel conta o surgimento e o declínio do RFA com muitos detalhes (e um tanto de violência). Acho que poderia se concentrar nos pontos principais da luta do grupo e diminuir os 150 minutos de filme.

O problema maior é que muitos nomes são citados, mais personagens entram no roteiro e não há uma introdução para o espectador desavisado. Conforme vai desenrolando, o filme se afasta de quem está assistindo. Chega no final e percebe-se muito mais a preocupação com a fidelidade da História do que com espectador. Logo, a gente sai do cinema sem muita afeição pelo filme.

Como disse no começo do post, O Grupo Baader Meinhof não é todo ruim. Destaque para a produção e atuação dos personagens principais.

Nota: 7,0/10.


Cinema em casa: Corações e Mentes

setembro 5, 2009

Se você gosta do gênero documentário e ainda não assistiu, sugiro que veja Corações e Mentes, do diretor Peter Davis. A dica foi do amigo Flávio Trovão, doutorando em história pela USP, onde analisa os filmes do diretor Robert Altman. Ele me indicou num comentário quando fiz um post sobre Apocalypse Now. Então no último domingo assistimos juntos Corações e Mentes.

O vídeo faz uma abordagem empírica sobre a Guerra do Vietnã e foi produzido em 1974, um ano antes da guerra acabar oficialmente. Neste trabalho, Peter Davis analisa discursos dos oficiais do exército americano, ouve cientistas políticos, soldados que vão para o fronte, famílias que ficam sem seus filhos, pais, irmãos. Mostra também a realidade de civis indochinas (na época da guerra, o Vietnã era chamado de Indochina) sofrendo com a destruição em massa de suas terras, o uso de ataques aéreos numa demonstração evidente de desigualdade de forças entre os dois lados combatentes. (lembra da cena clássica da menina queimada nua correndo na estrada? é desse documentário… tem a imagem aqui no trailer).

O mais legal de Corações e Mentes é a colcha de retalhos que Peter Davis vai tecendo no desenvolvimento do roteiro. A manipulação ideológica em torno de uma paranóia ameaça comunista faz dezenas de milhares de mortes e fica claro como o governo americano realiza uma verdadeira lavagem cerebral nos cidadãos de seu país e acaba influenciado o lado ocidental do mundo a pensar do mesmo jeito. Para isso, usa o cinema, a propaganda, de forma com que hoje a gente define como grotesco e quase amador, mas de muita eficiência na época.

Enfim, Corações e Mentes é chocante, revoltante e esclarecedor.


Cinema em casa: Across The Universe

setembro 2, 2009

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Já viu Frida, né? E Across The Universe? Ambos têm a direção de Julie Taymor, nome forte na Broadway, que entre outros projetos, comandou o musical O Rei Leão, cujo trabalho lhe rendeu dois Tony Awards, prêmio que é considerado o oscar do teatro. Atualmente, Taymor está na megaprodução de Spyder Man, o musical mais caro da Broadway que estreará em 2010.

No cinema, seu último trabalho foi também um musical: ‘Across The Universe’ em 2007, muito bem elaborado tendo como ligação uma estória baseada nas letras das músicas dos Beatles, contemporânea da fase áurea da banda, isto é, década de 1960, só que nos Estados Unidos. Julie Taymor caprichou no visual da moçada e na abordagem de temas importantes da época como a Guerra do Vietnã, a liberdade sexual etc. O filme foi indicado no Oscar de 2008 na categoria Melhor Figurino, mas perdeu para o filme ‘Elisabeth – A Era de Ouro’.

A viagem é tão psicodélica, quanto as próprias músicas da banda, mas não é que o resultado ficou interessante? Contando com uma produção impecável, aliada a interpretações muito interessantes, Across The Universe é um agradável passatempo de um sábado à tarde.

Quem é fã de Beatles então é um prato cheio. Destaco aqui dois momentos altos do filme. O primeiro, o encaixe perfeito da música ‘I Want You’ com o tio Sam convocando os soldados para a Guerra. Veja:

O segundo é a adaptação em forma de apresentação circense da ‘Being for the Benefit of Mr. Kite’. Performático:

Apesar de muita gente não gostar de musical, sugiro que assistam Across The Universe, principalmente porque além de bem feito, é bonito e dá para conhecer um pouco mais de Beatles.

Nota: 9.0/10.